História HVACR – Charles Tellier e “Le Frigorifique”

Falar do início da refrigeração para conservação de alimentos e citar seus experimentos, suas   tentativas e descobertas realizadas é mais do que descrevê-las. É prestar homenagem a esses homens do passado, que abriram caminho para o desenvolvimento da humanidade através da refrigeração e dos muitos benefícios que ela nos proporciona. Para efeito de tributo, mais do que oportuno, é necessário registrar o nome da primeira embarcação frigorífica que aportou na América Latina: Le Frigorifique.

Jornal La Nación, Buenos Aires, Edição de 14 de Dezembro de 1976.

O jornal portenho La Nación, em sua edição de 28 de dezembro de 1876, estampava na primeira página a manchete “A propósito del Frigorífico”. E  dizia na abertura da reportagem “…Não foi esperada com mais expectativas em Atenas o navio de Teseu, que devia anunciar aos filhos de Ática a morte do Minotauro, do que tem sido o Frigorífico para os filhos do Prata.”   Naquela data, o jornal falava da chegada ao porto de Buenos Aires do navio Le Frigorifique. Embarcação de fabricação inglesa, com capacidade de 1200 t, e uma velocidade de seis nós por hora. Vindo de Rouen (França), sua chegada foi ansiosamente aguardada pelos portenhos, em particular pelos bonaerenses dedicados à pecuária. Mas o quê havia de tão surpreendente naquela  embarcação que movimentou toda a Província?  A expectativa especial era o fato de que a embarcação tinha capacidade de transportar carnes e outros alimentos resfriados. E carne era e é um dos principais produtos de exportação da Argentina. À  frente do Le Frigorifique, achava-se Charles Tellier, francês, nascido em Amiens, em 29 de junho de 1828. Mais moço, Tellier ajudava seu pai, colaborando em uma indústria têxtil de propriedade da família. Com a chegada da Revolução de 1848, essa  empresa faliu. A partir daí, o jovem dedicou-se ao que realmente gostava: estudar assuntos diversos sobre mecânica industrial. Isto o levou a construir um barco em 1856, em que a refrigeração acontecia em função da amônia e, através desse experimento, Tellier passou a fazer experiências com as possibilidades práticas daquele fluido.  Assim, em 1868 pôde anunciar o resultado de alguns de seus trabalhos, entre eles  uma máquina frigorífica. Com o objetivo  de aplicar o invento a empreendimentos mais importantes, Tellier instalou numa embarcação a primeira usina frigorífica de que se tem notícia, destinada à conservação de carne e de outros alimentos, através do frio artificial. A embarcação deveria cumprir a rota  de Londres a Buenos Aires. Nesse primeiro intento, a conservação das mercadorias foi a melhor possível até o vigésimo oitavo dia. Porém, um imprevisto causou um acidente e frustrou sua iniciativa, obrigando-o a se desfazer do carregamento da carne jogando-a no mar através da borda do navio.

Mas Tellier não desanimou e continuou adiante. Obteve apoio financeiro e político por parte do Imperador da época, Napoleão III. Também, a Academia de Ciências da França acompanhou o desenvolvimento desse trabalho e aprovou os resultados obtidos. A opinião pública de seu país, acompanhando seus esforços, na sua maioria, era-lhe  favorável. Tudo estava preparado para que se prosseguisse  o empreendimento, mas a Guerra Franco-Prusiana, de 1870,  obrigou Tellier a fazer uma pausa nos trabalhos e aguardar seu término. Seis anos mais tarde foi o ano da Grande Viagem, onde se consolidaria o invento. A Argentina há alguns anos, já havia oferecido 40 mil francos para o inventor que apresentasse o melhor sistema para conservação de carnes resfriadas. Pois assim foi feito. Em 20 de setembro de 1876,  Le Frigorifique  partiria da França transportando uma carga de carnes resfriadas, que se completaria em Lisboa. Chegando a  Portugal, o inventor francês  retornou a Paris devido a alguns problemas. Era a segunda dificuldade. A primeira aconteceu  no Golfo de Gasconha, local em que se desencadeou uma grande tormenta.

Tellier foi homenageado em vida e depois de sua morte, sempre em referência àquela viagem a Argentina

Mas, novamente, Tellier persistiu. E partiu rumo à Argentina, onde a chegada do barco era aguardada com muita expectativa. Sua entrada  foi saudada com alvoroço. Faltava a grande prova, a grande demonstração de que o sistema de refrigeração era eficaz. E ela aconteceu no mesmo dia de sua chegada. Como comemoração, registra-se  que em 28 de dezembro de 1876, a bordo do Le Frigorifique foi oferecido um almoço a diversas personalidades. A reportagem de um jornal portenho da ocasião dizia: “…O banquete da prova começou. Depois de algumas hors d’oeuvre, um filé de vaca resfriado. Após 105 dias de viagem, chegou fresco a Buenos Aires. Os convidados saborearam excelente Filé de Chautebriand com trufas a la Perigord, embarcado em Lisboa há 55 dias. Ovos à la Broche. Igualmente com 105 dias de armazenagem. Todos esses pratos foram encontrados magníficos: a carne tão fresca, tão suculenta, como a que se vende todos os dias no Mercado”. Pouco depois, em um porto argentino Le Frigorifique se faria o primeiro carregamento de carnes que navegariam rumo à França. E Charles Tellier entrou para a História como o Pai do Frio.

  • TEXTO: CRISTIANE DI RIENZO. PROIBIDA A REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL SEM AUTORIZAÇÃO DA AUTORA.

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Capa do Menu do Le Frigorifique, na viagem a Buenos Aires, em 1876
Buenos Aires, em 1876
Charles Tellier, virou selo na França
Charles Tellier, o pai do Frio
e nome de rua também!
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